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segunda-feira, 20 de julho de 2009

Tonight, Tonight

O vídeo Tonight, Tonight da banda Smashing Pumpkins representa uma fase promissora e explosiva. Nunca fui um grande fã de seu material, mas sempre adorei este clipe. A letra motivadora e a nostalgia por parte do visual arcaico afloram a imaginação de qualquer um, o mesmo que George Méliès fez ao exibir em 1902 o primeiro filme de ficção científica da história do cinema, Viagem à Lua.

Nesse período, a Revolução Industrial alcançava patamares desconhecidos e revolucionários. Assim como, uma viagem espacial era inusitada para a mente da época, fazer um filme também o era; pensar em evolucionismo e socialismo idem. Apesar das idéias Darwin e Marx/Engels não serem tão novas, alastravam-se vorazmente na mente das pessoas. Num ritmo de progresso, o homem queria conquistar mundos.

E que mundos são Sol e Lua que já foram considerados deuses na percepção dos povos antigos. Eles estão ali, sempre estiveram passeando por nosso céu todos os dias a bilhões de anos. A sua movimentação é a nossa por conseqüência. Por isso, a Lua se torna mais que um personagem, torna-se uma vigilante protetora. Devemos admirá-la e aproveitá-la. Hoje à noite... Se der.

Tonight, Tonight e Right Now (da banda Van Halen) são tão punks e, do mesmo modo, se aproximam da satisfação pessoal como lema humanitário. Suas letras colhem o dia, confiando o mínimo no amanhã. Simbolizam a partida para o futuro sem que se deixe um pedacinho de juventude mudar as vidas das pessoas, as nossas vidas. Por isso, o casal viajante nunca questiona, eles vivem, deixam os deuses de lado sem desafios e apenas lidam com o que se cruza no seu caminho. Desta forma, todos serão celebrados. E o vídeo demonstra essa satisfação quando o casal está dentro do mar – ao contrário do que ocorre na Lua, a deusa desafiada.

Nesta música, existem muitas influências da poesia de Horácio, Carpe diem, e de Robert Herrick, To the Virgins, to Make Much of Time. Enquanto o poeta romano dava a importância do presente em detrimento dos acontecimentos no futuro até como base de sua filosofia, o poeta inglês fez o mesmo, mas sem muito êxito no período elisabetano. Contudo, seu trabalho ajudou a reavivar o tipo de texto durante a projeção do arcadismo na Inglaterra no início do século XVIII.

Apesar de vivermos num mundo de culturas muito misturadas, o Smashing Pumpkins conseguiu realizar uma proeza com uma canção basicamente árcade. Há a conquista de Locus amoenus e o menosprezo da Aurea Mediocritas. Muitos não possuem tanta afinidade para se chegar a isso, considerar o carpe diem. Depois do clipe lançado, a banda acreditou nos fãs como eles acreditam nos músicos. É um jogo de inteligência e acreditar... Existe algo de mais valor do que isso?

O vídeo não tem URL, então clique aqui para ver.

Ao infinito e além

As armas e os barões assinalados,
Que da ocidental praia lusitana,
Por mares nunca dantes navegados,
Passaram ainda além da Taprobana,
E em perigos e guerras esforçados
Mais do que prometia a força humana,
E entre gente remota edificaram
Novo Reino, que tanto sublimaram;

E também as memórias gloriosas
Daqueles reis que foram dilatando
A Fé, o Império, e as terras viciosas
De África e de Ásia andaram devastando;
E aqueles que por obras valerosas
Se vão da lei de Morte libertando
– Cantando espalharei por toda parte,
Se a tanto me ajudar o engenho e arte. (...)


Primeiras duas estrofes d’Os Lusíadas, de Camões

Ao trocar algumas palavras destes versos, pode-se classificá-lo como um desafio a todos os exploradores, inclusive aos astronautas.

A obra camoniana exalta um poderio naval português brilhante. Enquanto as aventuras das descobertas renascentistas reorganizavam a mente européia aproximando as pessoas de si mesmas de maneira mais humanista, as navegações luso-espanholas reposicionavam o homem no seu planeta. Os novos conquistadores enfiavam-se em naus à procura de riqueza, glória e conhecimento. Nos fins do século XV, os portugueses e espanhóis duelavam para assegurar sua expansão global. O Tratado de Tordesilhas é um acordo que expõe essa “Guerra Fria” da Era Moderna cujo período estava recheado de incertezas acerca de tais viagens suicidas com seus monstros marinhos e a ira de Deus (ou deuses). Os navegadores partiram porque valia à pena e suas almas não eram pequenas.

Como um ciclo da vida, quinhentos anos mais tarde, Estados Unidos e União Soviética participaram de um mesmo duelo pela conquista do espaço. Homens ambicionavam sua posição no Universo carregando uma bagagem de centenas de milhares de anos de conhecimento; por sua vez os estados antagônicos travavam uma dura batalha político-científica pela supremacia na Mãe Terra.

Hoje, dia 20 de Julho, faz 40 anos que o homem conseguiu pisar na Lua conquistando um de seus antigos deuses mitológicos. Nem é preciso mencionar as controvérsias do assunto. Contudo ressalta-se que a viagem ao espaço ainda está longe de ser fato para o humano comum. Apenas militares selecionados e gente endinheirada podem fazer uma visitinha na órbita terrestre.

O ano de 2001 passou sem que pudéssemos dançar valsas através de naus exuberantes. Outros fatores mudaram os planos. As viagens fantásticas continuam a sê-las na imaginação porque atualmente estamos mais preocupados em como será o futuro do planeta por questões de sobrevivência. E por enquanto não poderemos escapar daqui tão facilmente.

Assisti a poucos filmes de ficção-científica espacial, portanto, não há muitas obras antigas ou em preto e branco. Mas há poucas que podem ser levadas a sério como também existem números baixos de produção sobre o nosso Sistema Solar. Assim deixo esta seleção acerca do espaço para apreciar e/ou pensar:

2001: Uma Odisséia no Espaço (1968), de Stanley Kubrick
Um monólito negro surge na pré-história interferindo na atividade do planeta com emissão de uma civilização extraterrestre. Milhões de anos depois, ele surge em Júpiter e afeta alguns astronautas. Logo, uma equipe é enviada para investigar. Dentro de uma nave totalmente controlada pelo computador HAL 9000, a situação mostra-se cada vez mais aterrorizante já que a inteligência artificial tenta assumir o controle da missão. Simplesmente, o mais completo filme de ficção-científica no espaço. Às vezes pode ser moroso, por isso , deve-se assisti-lo com atenção.



Aliens – O Resgate (1986), de James Cameron
Após um primeiro capítulo bem finalizado por Ridley Scott, Cameron teimou em fazer uma seqüência. O sucesso foi estrondoso e o clima tão absurdamente sinistro quanto o do filme anterior. Depois de ficar à deriva por anos, a Tenente Ripley volta a enfrentar monstrengos babões com a ajuda de uma equipe militar de elite para resgatar dezenas de pessoas de uma colônia planetária atacada pelos aliens. Esta obra deu brecha para várias cópias fracas.

Apollo 13 (1995), de Ron Howard
História real dos tripulantes da nave Apollo 13 que sofreu uma pane durante missão à Lua. Com ajuda da NASA, os três astronautas retornaram no veículo avariado com várias chances de se perderam pelo caminho. Além disso, não tiveram tanto reconhecimento quando foram para o satélite, mas devido às circunstâncias, voltaram como heróis.





Cowboys do Espaço (2000), de Clint Eastwood
Por pura politicagem, um quarteto de pilotos é posto de lado num projeto de viagem espacial. Anos depois e já idoso, o líder (Eastwood) é convocado para consertar um satélite russo dos tempos de Guerra Fria. Ele concorda em ir até lá com seu grupo ao invés de fazer tudo por computador. O filme veio na onda da segunda experiência de John Glenn, aos 77 anos, em órbita terrestre em 1998.




Da Terra à Lua (1998), de Michael Grossman
A minissérie conduz a história da conquista da Lua pelos Estados Unidos através de muitos personagens que possibilitaram o acontecimento de 1968. Para comemorar os 30 anos do episódio, Tom Hanks produziu doze capítulos acerca da corrida espacial.






Os Eleitos (1983), de Philip Kaufman
Durante a corrida espacial, um grupo de astronautas é apresentado como heróis estadunidenses para a conquista do espaço. Infelizmente, nem todos conseguem o estrelato. Além de contar com emoção os casos da NASA, o roteiro mostra também a vida de um herói solitário no meio do deserto quebrando recordes de altitude com seus testes em aviões supersônicos.




Missão: Marte (2000), de Brian De Palma
Quatro astronautas são enviados ao planeta Marte para investigar o que ocorreu com a missão da nave anterior. Relativo sucesso de bilheteria que teve um concorrente indireto lançado no mesmo ano que se deu mal: Planeta Vermelho. Contudo, esta obra de DePalma não é o melhor representante (leia-se, filhote) da filosofia de Kubrick. Deixa a desejar em muitos aspectos e é chato. Os efeitos da evolução da Terra são bacanas, mas é pouca coisa.




Outland – Comando Titânio (1981), de Peter Hyams
Transferido à colônia mineradora de Io, satélite de Júpiter, um patrulheiro espacial investiga as causas da morte de diversos trabalhadores – algumas de maneira violenta. Lá, descobre uma anfetamina que deixa as pessoas ligadas até não agüentar mais. Com poucos aliados, o patrulheiro passa a ser alvo de assassinos. Típico de alguns seres humanos colonizarem tudo o que se vê e lucrar com a fraqueza alheia mesmo em outros planetas. Bom ritmo de suspense, mas com um final óbvio.


Serenity (2005), de Joss Whedon
Continuação da série de TV Firefly em forma de longa-metragem. Os combates humanos travados no planeta natal agora são realizados no espaço. A história ocorre alguns anos depois da Guerra de Unificação. O capitão da nave Serenity participou do acontecimento, mas estava no lado perdedor; agora vive de assaltos com sua tripulação. Quando o médico da equipe resgata sua irmã, todos ficam em perigo, pois a garota faz parte de um programa da Operativa, uma espécie de governo espacial. O filme mostra o porquê da existência dos assassinos canibais, Reavers.


Star Trek (2009), de J.J. Abrams
No futuro, o ser humano é unido em seu planeta e seus inimigos agora vivem no espaço. Há muitas cenas de preconceito, principalmente relacionadas a Spock. A idéia de recomeço da saga Jornada nas Estrelas é levada ao limite, pois os acontecimentos do filme sugerem uma linha nova com infinitas possibilidades ao contar a história dos exploradores da nave Enterprise. Não há Terra destruída e os humanos sempre retornam para casa. O que vale é a exploração, assim como, os navegantes lusitanos faziam.



Sunshine – Alerta Solar (2007), de Danny Boyle
Grupo de sete cientistas percorre um longo caminho até o Sol para bombardeá-lo e aumentar a profusão de seu calor que aos poucos se extingue. A missão dá errado quando eles resolvem resgatar a nave anterior que tinha o mesmo objetivo e está à deriva. Boa construção narrativa, mas, durante o clima de terror, a montagem incomoda. Os melhores momentos estão na observação ao planeta Mercúrio e o vício pela luz solar de alguns tripulantes.




Titan A.E. (2000), de Don Bluth e Gary Goldman
O planeta é atacado por uma raça alienígena e completamente destruído. Os seres humanos espalham-se pelo espaço sendo tratados como ralé de muitos outros povos. O filho de um cientista é a chave para se encontrar outro lugar para sua raça sobreviver. Inicialmente, ele reluta, mas decide realizar a perigosa tarefa. A animação foi um fracasso de bilheteria, mas tem bons momentos.




Viagem à Lua (1902), de Georges Méliès
Inspirado pelo romance de ficção de Júlio Verne, a obra conta a história de cinco astrônomos que aterrissam no satélite dentro de uma cápsula lançada por um canhão gigante. Lá são aterrorizados pelos selenitas; conseguem fugir e chegam seguros a Terra. Considerado o primeiro e mais velho filme da história do cinema. Para quem gosta de coisa antiga é muito divertido.





O Vingador do Futuro (1990), de Paul Verhoeven
Homem de classe média tem pesadelos com o planeta Marte. Ele decide realizar uma viagem mental pelo lugar, mas algo dá errado e diversas pessoas estão à sua procura. Logo, investiga a si próprio indo até a colônia humana fincada no planeta vermelho. A obra choca pelo excesso de violência, mas a história é espetacular e se não ficar atento vira uma bola de neve.




Wall-E (2008), de Andrew Staton
Um pequeno robô-empilhadeira vive há 700 anos na Terra acumulando montanhas de lixo num planeta quase morto. Uma nave aterrissa e deixa um ser artificial mais desenvolvido, EVA, para investigar o lugar. Ambos se conhecem e quando EVA é forçada a ir embora, Wall-E a persegue. Impactante do começo ao fim, essa pérola demonstra o quanto o homem pode destruir sua casa sendo que o necessário seria apenas cuidar dela.

quarta-feira, 24 de junho de 2009

Vida à paisana

Viagens ao interior (e à praia) são fugas do cotidiano exausto para as pessoas da cidade grande. Elas necessitam retirar-se da sua realidade e conhecer hábitos que não fazem parte do seu leque superficial de civilização. Não é à toa que sempre vemos caravanas nas rodovias às vésperas dos feriados: ali estão aventureiros em busca por uma fantasia de prazer, de alegria.

No caso, entremos em outra procura de distração para os que não têm tempo ($$) de viajar; entremos no mundo da ficção, ou melhor, de dois filmes e de um livro: Sob o Sol da Toscana, de Audrey Wells, e Um Bom Ano, de Ridley Scott, são dois lados de uma mesma moeda enquanto o “todo” será preenchido pela obra póstuma de Eça de Queiros, A Cidade e as Serras.

No filme de Audrey Wells, as plantações de vinhas, girassóis, oliveiras e afins da região da Toscana enchem os olhos de qualquer um; e quando a escritora norte-americana Frances (Diane Lane) parte em uma excursão pela Itália, ela resolve se fixar no lugar depois de ser traída no casamento – e literalmente expulsa de sua residência. Com o tempo, irá se habituar aos distintos italianos locais, além de reerguer a própria vida.

Já a obra de Ridley Scott mostra a estória do investidor britânico Max Skinner (Russell Crowe) que recebe de herança um vinhedo francês após a morte de seu tio. Ao se deparar com o local e com o péssimo vinho fabricado por lá, ele pretende vendê-lo; e ao mesmo tempo, rememora sua infância. Mais tarde, novas pessoas surgem em sua vida, nutrindo um efeito que o faça voltar atrás em sua decisão.

Tanto um quanto outro, não há nada inovador. Basicamente a mesma sinopse para públicos distintos. Os efeitos hollywoodianos só o tornam mais vendáveis ao grande público. Diga-se de passagem: ambos são adaptações de livros homônimos e se passam na região do Mar Mediterrâneo, onde justamente estão as maiores vinícolas da França e da Itália (talvez do mundo).

Ainda sim, existem diferenças. Sob o Sol da Toscana tenta ser mais um drama romântico de uma mulher na fossa com requintes de humor. Frances se diverte com a trupe de trabalhadores que reformam sua casa, mas presencia amargamente a desilusão de sua melhor amiga grávida (Sandra Oh). E à procura de um novo amor (típico dos filmes de Diane Lane) ela também irá encontrar um pouco de insatisfação. Nada que não possa ser contornado.

E apesar de Um Bom Ano ser um drama igualmente, a obra tende ao humor em si. O personagem principal não apenas é egocêntrico para lidar com as pessoas, como zomba os franceses a todo o momento. Há uma cena realmente cômica (ou é a única) em que desafia Francis Duflot, o capataz do vinhedo, numa partida de tênis entre França e Inglaterra reavivando a rixa entre ambos. Com relação ao amor, o britânico se apaixona pela dona de um restaurante local, Marion Cottillard (até eu!), e através dela, sua decisão quanto à venda da fazenda chegam ao dilema completo.

Vejamos o caso de A Cidade e as Serras: Jacinto de Tormes é um rico bon vivant na Paris do século XIX. Sempre compra todo tipo de bugiganga que a revolução industrial pode produzir. Um antigo amigo seu, Zé Fernandes, aparece na capital francesa e ambos passam a conviver juntos por um tempo até que Jacinto entra em profundo pessimismo com a civilização parisiense. Resolve então a voltar à Portugal para resolver um problema com os túmulos de seus parentes. Observando atentamente a região serrana, passa a gostar de viver ruralmente e das pessoas a quem pretende ajudar; atendo-se ao campo cria estirpe no local.

Publicado pouco depois da morte de Eça de Queiros, a obra é uma espécie de “tataravó” dos dois filmes citados. Durante o século XIX, a amabilidade do homem civilizado de Paris (para ser mais sucinto) produziu inúmeros aprimoramentos científicos e tecnológicos cujas conseqüências desatinaram na falta de raízes familiares, consumismo exacerbado de conhecimento, futilidades em demasia e pobreza esquecida. Este último se evidencia no momento em que Jacinto conhece uma mulher doente passando fome na região de seu imenso terreno em Tormes.

Com Zé Fernandes incumbido de narrar o choque desses dois mundos perpetrado tanto por ele próprio quanto por Jacinto, é que temos real valor das percepções de ambos ao exprimirem prós e contras ao evolucionismo industrial e à calmaria campestre. Desta maneira, mesmo definido num tom realista de prosa, Eça de Queirós (cujo Realismo português fora justamente iniciado pelo autor) incitou uma veia romântica ao final da obra; aproxima-se mais da humanização das personagens, ao invés de buscar na sátira uma crítica ferrenha da sociedade da época.

Em qualquer um dos três casos, fica claro que a “civilização” urbana é um lugar mesquinho, individualista e superficial, mas de bastante progresso intelectual, industrial e monetário. Ou seja, os três personagens precisam resgatar algo que haviam perdido com o passar dos anos; para isso, eles devem esquecer o estado pessimista vivenciado e garantir algo mais altivo.

A ficção maravilha o espectador (e o leitor) com suas facilidades momentâneas; eis que para alguém sair de sua complicada e desajustada vida dos grandes centros urbanos deve refazê-la num ambiente totalmente novo, no meio rural. Quem dá um pontapé em Schopenhauer e revira seus conceitos pessimistas para algo mais agradável tem sempre um final feliz. Abrandando a vida assim, ao menos surte efeito na nossa imaginação.

Adaptações, até onde pode ir a infidelidade?

Todo mundo sabe, comenta, refuta, endossa, pergunta, reclama, sobre o perrengue eterno entre livros e suas adaptações cinematográficas. É um fato consumado. Mostre-me qualquer adaptação literária (falando especificamente de um romance bom, por favor – pulp de banca é OUTRA história que eu conto depois, ou não) que não recebeu pelo menos uns cinco comentários do tipo "ah, o livro é melhor", e eu lhe mostro uma mentira. É chato, é clichê, e você sabe que não tem como fugir disso; o livro sempre é melhor.

Nessas, entrar no papo de que são duas mídias distintas, com estruturas narrativas distintas, é meio punheta. Não que não seja verdade. Porque é. Mas também não é desculpa para muito aborto nascido por aí, e entrar nesse mérito agora é esticar a discussão ad infinitum. Coisa muito técnica, às vezes, e muito teórica nas outras.

Só para brincar na borda, um romancista tem uma liberdade expansiva que um cineasta geralmente não tem. É só pensar em quantos livros você já viu por aí com 400, 500 páginas (ou mais), e em quantos filmes tem uma metragem de quatro ou cinco horas. Porque o ditado nos engana ou, pelo menos, não é suficiente: uma imagem vale mais do que mil palavras; mas mil palavras intensas, numa narrativa única, precisa de muito mais imagens para equivaler. Mas eu realmente não quero me delongar aqui.

O ponto crucial, talvez, seja um pouco mais profundo. Não sei.

O grande trunfo do livro, aquilo que talvez provoque toda fúria incontida (embora sempre previsível) dos leitores apaixonados, é óbvio. O escritor não força a história para você; apenas a narra, com mais ou menos acerto, e o resto fica por conta do próprio leitor. E, cá entre nós, não é que ele não force a história por altruísmo. Simplesmente não consegue. Ele pode te indicar a música que acha cabível em um determinado momento da história, mas não colocá-la para tocar no rodapé da página como, metaforicamente falando, um diretor faria. Então o leitor vai lá e cobre essas lacunas, e cria dentro da cabeça um modelo pré-determinado da história, ainda que muito canhestramente. Quando acaba por ver uma adaptação cinematográfica dessa história, o modelo narrado em filme e a pré-concepção criada pelo leitor se chocam, às vezes com similaridades, às vezes com diferenças irreconciliáveis.

Dentro da adaptação, ainda existe, sempre, ou em pelo menos 90% dos casos, acho, outro problema: algo tem de ser cortado. Pouquíssimas adaptações escapam desta outra sina (já ouvi dizer, embora não o tenha lido ainda, que a adaptação dos irmãos Coen para o velho Cormac de Onde os Fracos não têm vez, é tão fiel, que se tornou objeto de uma pequena discussão entre amigos na entrega do Oscar; uma especulação onde se dizia que o filme não merecia realmente o prêmio de Melhor Roteiro Adaptado). Isso se torna um problema particularmente sensível (o corte) se o cineasta, seja por gosto pessoal ou por necessidade (sendo geralmente a segunda), remove da montagem final justamente aquela parte que o leitor-espectador-crítico admirava no romance.

Claro que estou me apegando à ponta do iceberg. O tamanho que essa discussão pode adquirir (especialmente se você a tiver numa mesa de bar; acredite!) é imenso. Nem tente. Sério.

Claro que existem boas adaptações literárias também (O Poderoso Chefão e 2001: Uma Odisséia no Espaço não contam, por motivos distintos). Até pensei em citá-las, mas com certeza ia me esquecer de alguma e me sentir mal depois.

Vou me ater as duas então que eu considero quase geniais, por ser o que eu vou chamar de, vai lá, "Mockadaptações” *. Naked Lunch (eu me recuso a chamá-lo pelo título em português, nada pessoal) é um filme de David Cronenbergh baseado no livro homônimo de William Burroughs. E na sua biografia. E em experiências com drogas. E com pirações típicas do cineasta que nada tem a ver com Burroughs, mas que tem MUITO a ver com Burroughs. É uma obra de arte, no duro.

Outro, Kafka, consegue ser uma mockadaptação ainda maior que Naked Lunch. Basicamente, o que Steven Soderbergh fez foi pegar o autor Franz Kafka em algum momento impreciso da sua biografia (mais ou menos entre os primeiros contos, a tuberculose e o ápice de sua criação) e jogá-lo dentro de um pesadelo kafkaniano, num processo de metalinguagem que é sutil, inteligente e, por que não, divertido.

Não acho que a mockadaptaçãos seja o único caminho a se seguir, algo à lá "salvação da literatura no cinema". Pelo contrário. A verdade, aqui entre nós, é que não existe salvação. Não há o que salvar, seja nos filmes, seja nos romances. Enquanto houver um idiota escrevendo, um dirigindo, e dois lendo ou assistindo, existirá obras geniais, ruins, incompreendidas. Não é uma questão de "o que é bom", e sim de "o que eu gosto". Sempre é.

Então leia o livro. Veja o filme. Faça ambos.

E me conte depois qual é melhor.

* Uma brincadeira com o termo mockumentary, que designa documentários feitos em cima de temas e/ou personagens forjados (não, não estou falando do Michael Moore). Na verdade, são filmes 100% ficcionais, mas feitos dentro dos moldes de um documentário. Por exemplo, This is Spinal Tap! de Rob Reiner; Zelig, de Woody Allen ou a comédia recente Borat.

** Texto concebido por Rafael Ucha Campos.