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sexta-feira, 18 de setembro de 2009

O candidato brasileiro ao Oscar é...

...Salve Geral! Dirigido por Sérgio Rezende e estrelado por Andréa Beltrão, a história relembra os ataques do PCC em maio de 2006 na cidade de São Paulo deixando a população em pânico e a polícia frágil devido à escalada da violência. Nunca antes havia ocorrido algo parecido na capital paulista. No meio de toda essa catástrofe urbana, uma professora de piano tenta tirar seu filho adolescente da prisão.

No post anterior eu pretendi questionar a especulação opinativa em torno de um filme e endosso o que disse: nossos interesses pessoais sempre esbarram naquilo que nos é mostrado. Desde já me coloco novamente decepcionado com a atitude de produtores, críticos e exibidores de cinema brasileiros que justificam a base de nosso sistema atual valendo-se ora de violência e pobreza ora de aspectos televisivos para se criar comédia.

O trailer que você pode ver abaixo se parece com aqueles longas norte-americanos idealizados para transmissão direto na TV. Não tem emoção ou inventividade. Quanto ao filme fiquei em dúvida quanto à sua qualidade, mas infelizmente nada de novo acrescenta ao fatalista cinema nacional. Depois reclamam dos excessos mercadológicos de Hollywood...

Os indicados à 82ª edição do Oscar serão anunciados em 2 de fevereiro de 2010; a entrega dos prêmios da Academia ocorrem no dia 7 de março de 2010, no Kodak Theatre, em Los Angeles, com transmissão ao vivo para 200 países.


É possível opinar sobre um filme sem tê-lo visto?

Bem, TODO mundo faz isso. Eu fiz isso várias vezes e tenho certeza de que você também já fez o mesmo. É inevitável seja por não gostarmos de determinado ator ou diretor, seja por rejeitarmos tal estilo ou gênero. A situação se complica quando chegamos a excluir – ou excluir-se – a pessoas que gosta de algo avesso às nossas interpretações e ideais. Mas isso é outra história e fica para depois.

De qualquer forma, a indagação veio de duas maneiras em minha mente: a primeira oriunda de uma lembrança em que uma amiga elogiou um filme estrelado pelo fraco galãzinho Paul Walker – se me recordo fora No Rastro da Bala – e rapidamente o taxei de “policial menor”, ou “pérola para Sessão da Tarde”. Isso ocorreu há três anos e não vi a obra até hoje; porém continuo achando o mesmo e talvez nunca o veja.

O segundo motivo está no site Cinematical. Cada membro do site escreve sobre um filme que jamais assistirá e explica o porquê de não fazê-lo. No caso, li o artigo de Dawn Taylor sobre A Lista de Schindler. Segundo ela, as razões são tão pessoais que perdeu o interesse, além de relembrar momentos tristes de sua vida em 1993, mas o fator principal se deve ao próprio diretor Steven Spielberg que, segundo ela, foi “capegando” com o tempo e tornando-se enfadonho com adaptações de massacres e escravidão.

Dentre a maioria dos internautas que repudiaram tal tipo de coluna, destaco dois que rebateram este artigo especificamente:

Internauta 1
– Eu não gosto desse filme.
– Você o viu?
– Não, mas não gosto.

Internauta 2
– Você aprecia o gosto da urina?
– Não.
– Você já bebeu?
– Não, mas usei meus poderes de observação para deduzir que desde que sei de onde vem e não ligar muito para o cheiro, ao invés de beber mijo, eu posso ter uma Coca.
– Oh.
– Mas aí, provavelmente eu não começaria um novo segmento chamado “Por que eu não beberei mijo”. Pois, sabe, eu não trarei nada à tona.

O problema não é realmente o fato da pessoa não assistir tal filme, mas a tentativa de explicar o porquê de não vê-lo. As opiniões de ambos internautas de alguma forma estão corretas. Que diferença faz isso? Para onde ir com um assunto que não leva a lugar nenhum? O que estou fazendo ao tentar questionar este tipo de posicionamento? Afinal é possível opinar sobre um filme sem tê-lo visto?

A começar pela diferença, esta não existe mesmo porque sem julgamento sobre um assunto ao qual não se conhece, não há discussão, certo? Por sua vez, o assunto não vai adiante e felizmente morre. Agora, questiono porque além de ter participado deste tipo de situação inumeráveis vezes, uma grande parte das pessoas que vai às locadoras dependem desse posicionamento por parte do atendente. É uma relação de dependência. E, neste processo, sim é possível dar sua opinião sobre QUALQUER filme, até pornô – mesmo o funcionário sendo um puritano de carteirinha. Desculpem-nos clientes, mas vocês são todos tapados.

É questão de piloto automático. O atendente faz seu trabalho com dinamismo e assiduidade e, portanto, quase todos os filmes se tornam bons para simplesmente passar pelo crivo da clientela e ser alugado. Puro apelo mercadológico. Contudo, mesmo que tais opiniões declaradas sejam positivas, o diálogo acerca do produto não dura muito. E o funcionário toma cuidado para não avançar num terreno desconhecido, afinal ele não pode (e nem deve) assistir mais de 10% do acervo da loja.

Fora esse trabalho, eu não consigo visualizar motivos para opinar sobre um filme cujo enredo ou personagens passem sem uma observação atenta do espectador. Procede? Eis o ponto: como toda mercadoria – para os intelectuais, arte – deve haver algo que atraia o público; se o negócio não chama a atenção de determinada pessoa, é muito provável que esta tenha desprezado – inconsciente talvez. Milhares de reclamações foram feitas acerca do trailer de Avatar, que estreará em dezembro, mas dispostas por uma massa de gente que viu pela internet e perdeu (ou não quis) ver a versão em 3D e IMAX.

Isso é um exemplo. Na verdade, cada filme, livro, música, pintura, escultura, fotografia etc. tem como principal meta ser avaliado por alguém. Portanto, sem vê-los, sem senti-los não podemos impugná-los a nada. É uma pena que nosso gosto pessoal se estabeleça freneticamente ao libelo do conhecemos e de nossos ideais. Sempre perderemos algo o que exprime uma estranha sensação de que continuamente se requer um novo aprendizado. De maneira não muito favorável também defrontaremos com nossas escolhas para analisar tudo. Sendo assim, talvez nunca veja realmente No Rastro da Bala. Não que me importe com isso.

Blockbuster fechará lojas nos Estados Unidos

Peguei uma notícia do Vírgula sobre a Blockbuster: segundo consta, para a empresa se recolocar no mercado de home vídeo, ela pode fechar 960 unidades até o ano que vem. Não é muito surpreendente, a nós brasileiros esta vídeolocadora já deixou de existir há dois anos quando fora comprada pelas Lojas Americanas.

A Blockbuster deixou de ser um dos principais meios para se alugar filmes nos Estados Unidos, pois duela contra a cibernética Netfix e a rede de quiosques da Redbox, além claro dos downloads externos. Por enquanto a fuga das locadoras é grande em prol da comodidade da concorrência.

Fruto agressivo da escala industrial estadunidense, a Blockbuster tornou-se uma das maiores redes de locadora de filmes no mundo na década passada. Lembro-me de quando chegou ao Brasil em torno de 1994-95. Eles diziam que tinha de tudo em matéria de filmes e games, além de um bom atendimento e seu visual à lá supermercado.

Na época, a empresa bem que tentou praticar dumping contra grandes concorrentes nacionais – em São Paulo, tinha Vídeo Norte, Premiere Vídeo, 2001 e a falida Hobby Vídeo –, mas rapidamente foi obrigada a aumentar os preços da locação. Por sua vez, as rivais conseguiram se posicionar muito bem devido à fidelidade da clientela, algo que a Blockbuster pouco usufruiu devido ao seu imediatismo em larga escala em prol dos lançamentos do momento; depois se desfez de um catálogo mais completo e se firmou com os produtos “quentes”.

Além disso, houve as derradeiras inadimplências dos usuários e o excessivo de atraso das locações que causaram uma parcial fuga de clientes. Aquela fresta do quickdrop era prática demais, mas arruinou a empresa; e somente a rede norte-americana que possuía tal facilidade. Por isso que a rede Redbox tem obtido sucesso: muitas vezes as pessoas nem devolvem os filmes e fica por isso mesmo.

Hoje, a Blockbuster é um pedaço enfiado num canto de uma loja de conveniência. Apesar de obter sua lucratividade, está mais para um sonho enfadonho de domínio estrangeiro que já passou.

Atualização: neste ano de 2010 a empresa vai de mal a pior. Em março, a Agência Estado publicou a matéria Blockbuster alerta que pode pedir concordata; nas duas últimas semanas isso tem se intensificado o que pode acarretar em decreto de falência neste mês de setembro.

sexta-feira, 11 de setembro de 2009

A mediocridade dos títulos de filmes

Existem nomes de filmes que simbolizam um descaso com a inteligência do espectador. Na verdade, há anos tais títulos envergonham o verdadeiro apreciador do cinema extraindo equivocadamente termos que nada condizem com o conteúdo da obra. Não é de hoje e não tem hora para acabar já que de tempos em tempos uma revista ou jornal bate neste ponto devido à falta de originalidade e desrespeito ao trabalho alheio.

Nesta sexta-feira, estréiam dois casos bem evidentes de títulos sem vergonha: Uma Prova de Amor e Falando Grego – um drama familiar e uma comédia romântica, respectivamente. Ambos poderiam ter nomes simples como “A Guardiã de Minha Irmã” (apesar da rima cafona) e “Minha Vida em Ruínas”, contudo as pessoas que criaram os títulos oficiais possuem a sabedoria levianamente limitada e, por isso, procuraram por meio de um apelo fácil chamar a atenção do público através de palavras-chave um tanto dissimuladas.

Vejamos o primeiro filme. A história se concentra numa garota adolescente que descobre a verdadeira faceta de sua existência: doar medula óssea à sua irmã mais velha que luta contra a leucemia. O embate se estabelece quando passa a questionar a atitude dos pais mesmo sendo uma espécie única estabelecida como “guardiã” de outra pessoa. Desta forma, o título Uma Prova de Amor mostra-se ilógico. Abranda o fato e o esconde do espectador sendo que no original My Sister’s Keeper a idéia proposta é escancarada; além disso, através de expor as palavras “prova” e “amor” evidencia-se um filme de claro caráter emotivo, mas que subtrai a análise de quem o assiste – em minha visão não existe qualquer prova de amor na história do livro, por exemplo.

Isto me lembra aquele filme cujo personagem era um pai com deficiência mental interpretado por Sean Penn que tentava obter a guarda da filha na justiça, Uma Lição de Amor. O nome original I Am Sam era simples e já até introduzia a apresentação do angustiado pai. No entanto, o estado de espírito do tradutor (ou marketeiro) falou mais forte e surgiu a tal “lição de amor” para estampar encartes e banners por aí. Engraçado que, com relação a outro filme do mesmo naipe, estendeu-se o título original Radio para Meu Nome é Rádio. Ambos não são dos mesmos produtores e sequer do mesmo estúdio, mas a incongruência aparece descaradamente.

Falando Grego é um caso à parte. Depois de Nia Vardalos atuar em Casamento Grego sua persona vinculou-se a ele como Christopher Reeve se fixou em Superman. Já trabalhei em locadora e nunca vi uma pessoa que tenha deixado de perguntar: “essa não é a atriz daquele filme do casamento?” Isso acontece com muitos atores em projetos memoráveis, mas a atriz e a obra se misturaram afinal o outro “grande” projeto dela foi o esquecível Connie & Carla. Ou seja, para o público reconhecer e lembrar quem é Nia Vardalos associaram Falando Grego com Casamento Grego. O fato de ser do mesmo gênero e constituir sintonia com a Grécia torna-se fatídica a associação. E, desta forma, perde-se o título original My Life in Ruins que quer se conectar a concepção da nação grega: uma vida fragmentada num país geográfica e historicamente fragmentado.

Não é por criticismo que escrevo com indignação sobre o assunto. Alguns títulos brasileiros conseguem se redimir mantendo no mínimo a essência do produto, outros de tão intraduzíveis ficam com o nome original. Porém sempre surge umas aberrações, principalmente entre os dramas e as comédias. É primordial que estes venham taxados com termos extremamente emotivas ou estupidamente idiotas – caso de O Som do Coração (August Rush, o nome do personagem principal) e Se Beber, Não Case! (The Hangover, ou “A Ressaca”).

Este tipo de ruína dos títulos assegura o aspecto marketeiro para a divulgação de filmes. Como existem coisas mais importantes na vida para se fazer (inclusive ler este texto), as pessoas pouco indagam e questionam. Está cada vez mais difícil de pensar em novos assuntos ou novas idéias; por isso, mastigam-se nomes, estilos, gêneros através de palavras-chave. O público os assiste por associações simples e, dependendo de um gosto particular, acaba se ferrando. Foram ignorados e, pior, sua capacidade de compreensão foi menosprezada.

Uma observação: Em Portugal, o título My Life in Ruins ficou exatamente como o original, A Minha Vida em Ruínas; The Hangover traduzido também ficou como A Ressaca.

quinta-feira, 13 de agosto de 2009

Por que a Xuxa recebeu uma homenagem no Festival de Gramado?

Infelizmente eu não tenho a resposta. Desde que ouvi falar do Festival de Gramado, percebi que muitos filmes participantes são, em sua maioria, esquecidos – observe, não são esquecíveis. Quem se lembra de Cassy Jones: o Magnífico Sedutor? Luís Sérgio Person recebeu um prêmio de diretor por esta obra. Ou, que tal, For All - O Trampolim da Vitória? Este ficou com o Kikito máximo de melhor filme em 1997 quando a produção cinematográfica brasileira ainda (re)engatinhava.

E, diante de tal posição pouco memorável para o festival – além de quem participa dele –, uma comissão resolve promover categorias especiais, com intuito de homenagear célebres artistas que auxiliaram o nosso cinema a ser o que é. Renato Aragão recebeu uma dedicatória por sua enorme contribuição ao lado do grupo Os Trapalhões sendo que este comediante é tão ilustre quanto seu antecessor popular, o grande Amácio Mazzaropi. Tá, mas por que a Xuxa merece tal honraria?

No portal G1 (olha só, da Globo...) está escrito o seguinte:

Segundo Alemir Coletto, presidente da mostra gaúcha, esse tipo de reconhecimento aos filmes infantis demonstra o “espírito democrático” do festival. “Ao longo de sua carreira, Xuxa foi uma atriz e produtora que ajudou a popularizar os filmes nacionais. O festival se engrandece de poder contar com sua presença como celebridade e ícone do nosso cinema”.
Coletto explica que a comissão organizadora da mostra escolhe os homenageados “por sua contribuição ao cinema brasileiro, independente do gênero dos filmes”. Já os filmes da mostra competitiva são selecionados por um grupo de especialistas. Por isso, uma produção infantil dificilmente concorreria no festival.
“É importante não confundir homenagem com mostra competitiva. Os filmes selecionados para a competição são determinados por um júri especializado, que leva em conta diversos elementos. A homenagem é um registro das personalidades importantes para a engrenagem do nosso cinema, independente das funções que desempenhem na frente ou atrás das câmeras”, explica o presidente.

A melhor resposta a isso foi escrita por Pablo Villaça em seu blog:

Surpreso com a notícia, faço uma rápida busca e descubro que a justificativa por trás da homenagem é o fato da Rainha dos Baixinhos ter levado "36 milhões de pessoas" aos cinemas com seus filmes. E, para mim, isto ajudou a solidificar uma opinião que muitos já manifestaram em voz alta: o Festival de Gramado acabou.
E mal posso esperar pela homenagem a Michael Bay no Oscar 2010.

Não tenho como discordar do editor e crítico do Cinema em Cena. Inclusive, imaginei o mesmo lance sobre o grandioso diretor de Transformers. Em que a Xuxa contribuiu ao cinema brasileiro? Ela não interpretou personagens, mas a si mesma. Seus filmes maniqueístas e despropositais não encantam pessoas em si, mas enchem a cabeça alheia de pensamentos vazios de uma moça, ou melhor, de uma mulher adulta querendo ser princesa. Isso é um benefício?

Daria um crédito a Lua de Cristal por ser parte da minha infância, contudo, em termos de história nada mais é do que uma redundante alegoria da apresentadora; um produto bem vendido e, por isso, tornou-se o maior sucesso de público em 1990. E quanto aos outros? Super Xuxa Contra Baixo Astral (1988) foi uma cópia chinfrim e paupérrima d’O Labirinto (1986); e também conta com uma das piores canções da época o que até enaltece o filme de David Bowie postulando-o a uma obra-prima.

Depois de Lua de Cristal, a Rainha dos Baixinhos ficou nove anos sem lançar outra investida de sua humilde soberba na grande tela. Quando chegou 1999, Xuxa Requebra estourou nas bilheterias brasileiras e deu início a uma série de trabalhos sem qualquer ideologia, eficácia cinematográfica ou comprometimento lúcido com uma interpretação. Sabe o que é interessante? Nos Estados Unidos, Michael Bay faz o mesmo! Sabe o que é pior? Ele também ganha um grana preta fazendo isso! Porém, existe uma diferença: no presente momento, nenhum representante do Globo de Ouro ou da Academia de Artes Cinematográficas de Hollywood se manifestou quanto a conceder tal honraria a esse intrépido diretor. Na verdade, Edward D. Wood Jr. mereceria muito mais uma homenagem (nem que fosse póstuma!) do que Bay. Quer saber, Arnold Schwarzenegger merece mais o tributo.

Houve um vazio nesse festival. Para preencher o espaço, a comissão cometeu a atitude infame enfiando um pobre conceito de cinema. Pelo menos, conseguiram ter atenção popular apesar de não ser da melhor maneira.

segunda-feira, 27 de julho de 2009

Reboots: quem começou?

Perambulando pela internet muitos sugerem que a onda de reinícios para franquias tiveram como causa mortis Batman Begins e que Christopher Nolan apresentou uma inovação ao moldar uma cinessérie com qualidade e inteligência, em detrimento das versões antigas. Contudo, outros produtores propuseram excluir trabalhos anteriores e começar tudo de novo antes da roupagem moderna do Homem-Morcego. Tem sido um método muito eficaz nos últimos anos, mas não é algo novo e nem hollywoodiano. Em passagem rápida pela história do cinema pode-se verificar que os japoneses fizeram reboots aparentemente com bastante eficiência.

Um monstro atômico
Em meados da década de 1980, a Toho programou um reinício à franquia Godzilla. Depois de quinze capítulos da era Showa, o lagarto-baleia apareceu diferente em O Retorno de Godzilla que ignorou completamente as seqüências lançadas entre 1955 a 1975 fixando-se apenas no original de 1954. Antes o monstro era tratado como herói salvando humanos de inimigos alienígenas e as estórias buscavam avivar mensagens acerca de problemas sociais; na era Heisei, o mesmo seria uma espécie de anti-herói, com ares mais intimidadores e seus capítulos proporcionaram uma ordem cronológica. Esse período durou sete filmes até finalizar em 1995.

Três anos depois, a Toho virou parceria da Sony para fazer uma versão americanizada do lagarto japonês. Intitulado Godzilla, o filme teve direção de Roland Emmerich e produção de Dean Devlin sendo que ambos escreveram o roteiro. Embalados pelo blockbuster do estúdio Fox, Independence Day, o projeto avançou apresentando um monstro atlético – mais animal, sem a tradicional “pancinha” – e jogando a “culpa” por sua criação nos franceses em decorrência dos testes nucleares realizados na Polinésia – no Japão, a culpa é dos Estados Unidos com suas bombas lançadas em Hiroshima e Nagasaki.

O filme não fez diferença nenhuma em termos culturais tornando-se um fracasso de bilheteria tão estrondoso quanto seu merchandising e, embora permita uma continuação, esta nunca foi levada adiante. Por sua vez, a Toho seguiu adiante e “rebbotou” a franquia pela terceira vez, iniciando a era Millennium. Godzilla 2000 voltava às origens nipônicas enfatizando o medo das pessoas, mas sem qualquer relação de continuidade nos seis filmes da série.

O novo 007
Em outro exemplo, há no Ocidente um dos mais célebres personagens da Guerra Fria: James Bond. O espião de Sua Majestade sofreu alternâncias com variados intérpretes ao longo de 40 anos, mas mantendo muito de sua essência através de vilões característicos e aliados de sempre – desconta-se a atuação que tinha detalhes distintos na personalidade de cada ator. De acordo com a cronologia oficial dos filmes, os primórdios de sua carreira foram parcialmente omitidos, mas daí sempre se pôde ler os livros para conhecer tal estória. E após o 20º capítulo, os produtores resolveram fazer um reboot à franquia, verdadeiramente o primeiro – quem sabe, o único.

Admirável que se inclua erroneamente Batman Begins como o catalisador do reinício da saga do espião. Enquanto os produtores buscavam diretor, atores e locações para as filmagens de Cassino Royale, um primeiro roteiro era escrito no ano de 2005 por Neal Purvis e Robert Wade; e, no segundo semestre, ele foi reescrito por Paul Haggis. Paralelamente, Christopher Nolan terminava a pós-produção de sua idéia para a franquia da Warner que estrearia em junho daquele ano. Então como o Homem-Morcego poderia afetar James Bond? Bem, não fez nada para incitar tal reação. O interesse para a nova fórmula de Bond estava a cargo de duas franquias: a saga de Jason Bourne e de Jack Bauer.

Por incrível que pareça, nem sempre os dois têm essa credibilidade, mas é fato que a Universal e Fox construíram um novo estilo da espionagem moderna. Lançado em 2002, A Identidade Bourne tinha algo novo, mais real, mais frenético. Naquele verão americano apareceu logo após a estréia de outra tentativa de reboot, A Soma de Todos os Medos. Ambos queriam identificar o público com o mundo atual, uma espécie de realidade paranóica, coincidentemente após os atentados de 11 de Setembro. Em matéria de renda, empataram. Só que o reinício para Jack Ryan provou ser fogo de palha e até hoje o estúdio Paramount tenta reerguer a série.

Neste momento também, a série de TV 24 Horas chegava à segunda temporada. Esbanjando absurdos, criatividade e realismo, seu herói carismático empreitava uma verdadeira caçada terrorista dentro do mundo estadunidense. O programa atingiu um público massivo e não passou longe de assuntos sociais relacionadas à tortura, fundamentalismo e paranóia coletiva. Além disso, Jack Bauer atravessava linhas tênues de todo o tipo para conter inimigos da democracia, como seu próprio país fez e ainda faz como “xerife do mundo”.

Aí, em novembro de 2002, a MGM lançou Um Novo Dia Para Morrer. O herói de ação Bond não passava de um personagem que brincava de ser espião cujo mundo beirava ao maniqueísmo auxiliado por fanáticos que constroem castelos de gelo. Esta diversão escapista apresentou um Pierce Brosnan bem mais velho, mas rendeu uma boa grana tornando-se o filme de maior arrecadação da franquia – reajustando valores 007 Contra Chantagem Atômica de 1965 ainda é o mais visto na tela grande. Porém, os produtores notaram uma mudança de padrões rapidamente justamente com Bourne e Bauer.

A Supremacia Bourne (2004) provou que o antecessor não era um mero sucesso momentâneo e, em 2007, O Ultimato Bourne definiu o gênero de espionagem por completo por sua trama cabalística e complexa para este século XXI. Corroborando tais tramas internacionais, a série 24 manteve excelente ritmo para seu infalível intérprete durando oito temporadas e um filme para a TV. O fim do contrato com Pierce Brosnan abriu as portas para se repensar o espião inglês e daí o reboot foi declarado com Cassino Royale (estranhamente, também é uma refilmagem). Portanto, neste caso, Batman de nada auxiliou Bond.

Terror revisitado
A partir da década de 1970 surgiram filmes com grande apelo comercial que poderiam se enquadrar como franquias: Dirty Harry, O Massacre da Serra Elétrica, O Exorcista, Tubarão, Star Wars, Superman, Halloween e Sexta-feira 13. Muitos tiveram continuações excessivas que diluíam a idéia original em prol do sensacionalismo barato e violência sem contexto. Era, para o bem ou para o mal, uma época de intensificação do método de render dinheiro que foi levada aos anos 80. Logo, o público-alvo adolescente extasiava-se principalmente com filmes de terror que engatilhavam sucessos através intermináveis seqüência sanguinolentas.

Na última década do século XX, metade desses filmes citados ou estavam enterrados ou em processo de abotoar o pijama de madeira. Contudo, surgiram ocorrências de “reboot de gêneros” incluindo-se aí o cinema-catástrofe e os assassinos em série carniceiros. O segundo caso se deu melhor, pois o custo era ínfimo, e começou em 1996 com Pânico, de Wes Craven. Essa nova onda do terror gerou trocentos filhotes ao redor do mundo e abriu brecha para assuntos ligados exclusivamente aos jovens, avivando até as comédias românticas.

Passada essa febre juvenil, surgiu outra: o da violência explícita. Em 2003, O Massacre da Serra Elétrica atualizou a carnificina do filme de 1974. Tratava-se de uma mera refilmagem, mas o sucesso tornou inevitável o método de revitalização e novos reboots sairiam cedo ou tarde. O Massacre ganhou um prequel quando a cinessérie Jogos Mortais atingia o estômago do espectador com uma crueldade absurda. E logo vieram Halloween e Sexta-feira 13. Em 2010, chegará à nova versão de A Hora do Pesadelo. E a saga destes monstros humanos não parece que chegará a um fim.

O caso Batman e os quadrinhos no cinema
O “filme evento” de verão renasceu com Batman, em 1989. O marketing agressivo chamou a atenção do público e a obra de Tim Burton tornou-se um dos maiores sucessos da história de Hollywood. Como o diretor não curtiu a experiência do primeiro filme, pois afirmou “trabalhar com uma arma apontada para a cabeça”, ele teve aval completo para dirigir a seqüência que chegou três anos depois. Mais sinistro e bizarro Batman: O Retorno saiu caro, foi pago e gerou certo lucro, mas não usufruiu da mesma renda de seu antecessor.

A Warner decidiu mudar seus planos achando que filmes sombrios de quadrinhos não interessavam ao público familiar. Resgatou uma idéia pré-Frank Miller e seu Cavaleiro das Trevas: adaptar o seriado do Batman dos anos 60. Se for considerar o primeiro reboot de uma franquia norte-americana, Batman Eternamente deve ser ela. Algumas evidências para tal conceito: visual mais colorido, Bruce Wayne volta a ser atormentado pela morte dos pais, sem cronologia com os antecessores, mais humor. O sucesso comercial deste terceiro capítulo e de Tempo de Matar em 1996 colocou Joel Schumacher num pedestal e, assim como Burton, o cineasta conseguiu total controle sobre Batman & Robin. Pra quê? Nada funcionou e o Homem-Morcego foi para a cova por tempo indeterminado.

Desde então Schumacher nunca mais dirigiu um filme que excedesse um custo de 70 milhões de dólares e manteve-se distante de blockbusters. A obra definitivamente marcou sua carreira. Em 2006, a revista Entertainment Weekly elegeu seu filme como uma das “25 piores seqüência já feitas” ocupando a quinta posição na lista. Em conseqüência disso, a Warner demorou seis anos para ressuscitar sua franquia mais rentável.

Pouco tempos depois, gerações distintas de espectadores consumiram adaptações de quadrinhos com imensa voracidade, pois há anos houve tentativas frustradas de se levar à telona personagens da Marvel. A espera acabou com X-MEN e, principalmente, com Homem-Aranha. Suas respectivas sagas foram em frente juntando cada vez mais público nas estréias e rendendo uma bagatela sensacional de dinheiro. Aflita, a Warner queria participar do terreno que perdeu com Batman & Robin. As produções de Batman Begins e Superman Returns eram o poder de fogo necessário para enfrentar o concorrente.

No entanto, alguns personagens Marvel não funcionaram tão perfeitamente. Em 2003, Hulk não convenceu muita gente devido à (ótima) montagem literalmente em quadrinhos e o “boneco de massinha” digital. O trabalho de Ang Lee consegue arrastar-se em muitas cenas, mas a pouca similaridade do personagem com a série dos anos 80 ajudou o público a manter distância. No mesmo ano, Demolidor mostrou o quanto o estúdio Fox estava desesperado para ter um sucesso igual ao da Sony e seu cabeça-de-teia. Afinal, a personalidade de seu herói aproxima-se muito de um sombrio Bruce Wayne do que algo ao estilo “filme família”. E, por fim, O Justiceiro de 2004 perdeu créditos dos fãs e parece não ter feito muita diferença para o filme de 1990, estrelado por Dolph Lundgren.

Por sua vez, o sucesso das franquias deixou a Marvel independente e o novo estúdio resolveu administrar seus próprios personagens a partir de 2007. Adquiriu de volta alguns heróis e, para manter o bom ritmo, fez dois reboots. O primeiro estreou em junho de 2008: O Incrível Hulk. Tudo era diferente: a concepção do personagem, os atores diferentes, a montagem (convencional) de filme de ação, a certa proximidade com a antiga série. Por incrível que pareça, também não funcionou fora do âmbito dos fãs. Seria o grande homem verde não crível mesmo para as fantasias exageradas de Hollywood? Bem, meses mais tarde chegou às telas o novo O Justiceiro. Como o antecessor, outro fracasso retumbante. Embora muito mais violento e utilizando a violência referente à mídia original, os problemas de produção afetaram a obra por completo.

Em outra rota, visto que havia chances de sucesso, a Warner investiu pesado em Batman e Superman. Lançado em 2005, o reboot do Homem-Morcego rendeu muitos frutos e havia vantagem em seguir a linha proposta por seu diretor-roteirista. Após três anos de espera e um marketing viral agressivo para os fãs, O Cavaleiro das Trevas fez história. Alguns críticos e admiradores afirmam que as adaptações de quadrinhos mudarão o foco tentando ser mais próximos do realismo dado por Nolan, mas resta ainda ver quem dará esse passo, se é que vai existir um seguidor.

Contrapondo-se, a continuação do Homem de Aço virou um caso à parte. O diretor Bryan Singer adotou o filme de 1978 e sua seqüência, de 1980, como ponto de partida para o seu trabalho. Superman Returns não é um reinício e muito menos um remake; corresponde ao episódio três. Contudo, mesmo com toda a aura, a aventura não atingiu as expectativas financeiras e deixou o estúdio na mão. Basicamente arrecadou o mesmo que seu colega da Liga da Justiça, mas o custo era de US$ 100 milhões a mais. Agora, Superman sofre com um papel indefinido e cheio de problemas. Ninguém ainda sabe se será “continuado” ou se receberá novo tratamento, bem como Quarteto Fantástico, Demolidor e Motoqueiro Fantasma.

A partir disso, esse excesso de recortes distintos de personagens reflete algo que já esteja vinculado ao processo criativo das histórias em quadrinhos. Como se vê muito na área, desenhistas e roteiristas passaram por grandes editoras e trouxeram idéias que foram se manifestando por intermédio de heróis e vilões. Esses inúmeros conceitos foram incorporados a quem hoje produz filmes, por exemplo. Os comics do cinema passariam pelo mesmo processo evolutivo de sua mídia de origem. Obviamente isso infestou para outras franquias e toda a complexa história de James Bond tenha ajudado e posteriormente usufruído do mesmo método somente agora.

Além disso, o novo século revisa seu antecessor em matéria das ciências como um todo. Os estúdios seguem esses passos e têm se caracterizado por aumentar o cinema com dezenas de adaptações, mas impuseram uma revisitação forçada realizando os famigerados remakes, os fatídicos reboots e os abissais prequels. Portanto, não foi Batman Begins o catalisador dessa situação monstruosa; na verdade, ele faz parte de um gigantesco processo bem ganancioso. Até assusta ler da boca de alguém a afirmação “conquistar uma nova geração de fãs” porque, na maioria das vezes, nunca parece que realmente isso vá dar certo.

segunda-feira, 20 de julho de 2009

Ao infinito e além

As armas e os barões assinalados,
Que da ocidental praia lusitana,
Por mares nunca dantes navegados,
Passaram ainda além da Taprobana,
E em perigos e guerras esforçados
Mais do que prometia a força humana,
E entre gente remota edificaram
Novo Reino, que tanto sublimaram;

E também as memórias gloriosas
Daqueles reis que foram dilatando
A Fé, o Império, e as terras viciosas
De África e de Ásia andaram devastando;
E aqueles que por obras valerosas
Se vão da lei de Morte libertando
– Cantando espalharei por toda parte,
Se a tanto me ajudar o engenho e arte. (...)


Primeiras duas estrofes d’Os Lusíadas, de Camões

Ao trocar algumas palavras destes versos, pode-se classificá-lo como um desafio a todos os exploradores, inclusive aos astronautas.

A obra camoniana exalta um poderio naval português brilhante. Enquanto as aventuras das descobertas renascentistas reorganizavam a mente européia aproximando as pessoas de si mesmas de maneira mais humanista, as navegações luso-espanholas reposicionavam o homem no seu planeta. Os novos conquistadores enfiavam-se em naus à procura de riqueza, glória e conhecimento. Nos fins do século XV, os portugueses e espanhóis duelavam para assegurar sua expansão global. O Tratado de Tordesilhas é um acordo que expõe essa “Guerra Fria” da Era Moderna cujo período estava recheado de incertezas acerca de tais viagens suicidas com seus monstros marinhos e a ira de Deus (ou deuses). Os navegadores partiram porque valia à pena e suas almas não eram pequenas.

Como um ciclo da vida, quinhentos anos mais tarde, Estados Unidos e União Soviética participaram de um mesmo duelo pela conquista do espaço. Homens ambicionavam sua posição no Universo carregando uma bagagem de centenas de milhares de anos de conhecimento; por sua vez os estados antagônicos travavam uma dura batalha político-científica pela supremacia na Mãe Terra.

Hoje, dia 20 de Julho, faz 40 anos que o homem conseguiu pisar na Lua conquistando um de seus antigos deuses mitológicos. Nem é preciso mencionar as controvérsias do assunto. Contudo ressalta-se que a viagem ao espaço ainda está longe de ser fato para o humano comum. Apenas militares selecionados e gente endinheirada podem fazer uma visitinha na órbita terrestre.

O ano de 2001 passou sem que pudéssemos dançar valsas através de naus exuberantes. Outros fatores mudaram os planos. As viagens fantásticas continuam a sê-las na imaginação porque atualmente estamos mais preocupados em como será o futuro do planeta por questões de sobrevivência. E por enquanto não poderemos escapar daqui tão facilmente.

Assisti a poucos filmes de ficção-científica espacial, portanto, não há muitas obras antigas ou em preto e branco. Mas há poucas que podem ser levadas a sério como também existem números baixos de produção sobre o nosso Sistema Solar. Assim deixo esta seleção acerca do espaço para apreciar e/ou pensar:

2001: Uma Odisséia no Espaço (1968), de Stanley Kubrick
Um monólito negro surge na pré-história interferindo na atividade do planeta com emissão de uma civilização extraterrestre. Milhões de anos depois, ele surge em Júpiter e afeta alguns astronautas. Logo, uma equipe é enviada para investigar. Dentro de uma nave totalmente controlada pelo computador HAL 9000, a situação mostra-se cada vez mais aterrorizante já que a inteligência artificial tenta assumir o controle da missão. Simplesmente, o mais completo filme de ficção-científica no espaço. Às vezes pode ser moroso, por isso , deve-se assisti-lo com atenção.



Aliens – O Resgate (1986), de James Cameron
Após um primeiro capítulo bem finalizado por Ridley Scott, Cameron teimou em fazer uma seqüência. O sucesso foi estrondoso e o clima tão absurdamente sinistro quanto o do filme anterior. Depois de ficar à deriva por anos, a Tenente Ripley volta a enfrentar monstrengos babões com a ajuda de uma equipe militar de elite para resgatar dezenas de pessoas de uma colônia planetária atacada pelos aliens. Esta obra deu brecha para várias cópias fracas.

Apollo 13 (1995), de Ron Howard
História real dos tripulantes da nave Apollo 13 que sofreu uma pane durante missão à Lua. Com ajuda da NASA, os três astronautas retornaram no veículo avariado com várias chances de se perderam pelo caminho. Além disso, não tiveram tanto reconhecimento quando foram para o satélite, mas devido às circunstâncias, voltaram como heróis.





Cowboys do Espaço (2000), de Clint Eastwood
Por pura politicagem, um quarteto de pilotos é posto de lado num projeto de viagem espacial. Anos depois e já idoso, o líder (Eastwood) é convocado para consertar um satélite russo dos tempos de Guerra Fria. Ele concorda em ir até lá com seu grupo ao invés de fazer tudo por computador. O filme veio na onda da segunda experiência de John Glenn, aos 77 anos, em órbita terrestre em 1998.




Da Terra à Lua (1998), de Michael Grossman
A minissérie conduz a história da conquista da Lua pelos Estados Unidos através de muitos personagens que possibilitaram o acontecimento de 1968. Para comemorar os 30 anos do episódio, Tom Hanks produziu doze capítulos acerca da corrida espacial.






Os Eleitos (1983), de Philip Kaufman
Durante a corrida espacial, um grupo de astronautas é apresentado como heróis estadunidenses para a conquista do espaço. Infelizmente, nem todos conseguem o estrelato. Além de contar com emoção os casos da NASA, o roteiro mostra também a vida de um herói solitário no meio do deserto quebrando recordes de altitude com seus testes em aviões supersônicos.




Missão: Marte (2000), de Brian De Palma
Quatro astronautas são enviados ao planeta Marte para investigar o que ocorreu com a missão da nave anterior. Relativo sucesso de bilheteria que teve um concorrente indireto lançado no mesmo ano que se deu mal: Planeta Vermelho. Contudo, esta obra de DePalma não é o melhor representante (leia-se, filhote) da filosofia de Kubrick. Deixa a desejar em muitos aspectos e é chato. Os efeitos da evolução da Terra são bacanas, mas é pouca coisa.




Outland – Comando Titânio (1981), de Peter Hyams
Transferido à colônia mineradora de Io, satélite de Júpiter, um patrulheiro espacial investiga as causas da morte de diversos trabalhadores – algumas de maneira violenta. Lá, descobre uma anfetamina que deixa as pessoas ligadas até não agüentar mais. Com poucos aliados, o patrulheiro passa a ser alvo de assassinos. Típico de alguns seres humanos colonizarem tudo o que se vê e lucrar com a fraqueza alheia mesmo em outros planetas. Bom ritmo de suspense, mas com um final óbvio.


Serenity (2005), de Joss Whedon
Continuação da série de TV Firefly em forma de longa-metragem. Os combates humanos travados no planeta natal agora são realizados no espaço. A história ocorre alguns anos depois da Guerra de Unificação. O capitão da nave Serenity participou do acontecimento, mas estava no lado perdedor; agora vive de assaltos com sua tripulação. Quando o médico da equipe resgata sua irmã, todos ficam em perigo, pois a garota faz parte de um programa da Operativa, uma espécie de governo espacial. O filme mostra o porquê da existência dos assassinos canibais, Reavers.


Star Trek (2009), de J.J. Abrams
No futuro, o ser humano é unido em seu planeta e seus inimigos agora vivem no espaço. Há muitas cenas de preconceito, principalmente relacionadas a Spock. A idéia de recomeço da saga Jornada nas Estrelas é levada ao limite, pois os acontecimentos do filme sugerem uma linha nova com infinitas possibilidades ao contar a história dos exploradores da nave Enterprise. Não há Terra destruída e os humanos sempre retornam para casa. O que vale é a exploração, assim como, os navegantes lusitanos faziam.



Sunshine – Alerta Solar (2007), de Danny Boyle
Grupo de sete cientistas percorre um longo caminho até o Sol para bombardeá-lo e aumentar a profusão de seu calor que aos poucos se extingue. A missão dá errado quando eles resolvem resgatar a nave anterior que tinha o mesmo objetivo e está à deriva. Boa construção narrativa, mas, durante o clima de terror, a montagem incomoda. Os melhores momentos estão na observação ao planeta Mercúrio e o vício pela luz solar de alguns tripulantes.




Titan A.E. (2000), de Don Bluth e Gary Goldman
O planeta é atacado por uma raça alienígena e completamente destruído. Os seres humanos espalham-se pelo espaço sendo tratados como ralé de muitos outros povos. O filho de um cientista é a chave para se encontrar outro lugar para sua raça sobreviver. Inicialmente, ele reluta, mas decide realizar a perigosa tarefa. A animação foi um fracasso de bilheteria, mas tem bons momentos.




Viagem à Lua (1902), de Georges Méliès
Inspirado pelo romance de ficção de Júlio Verne, a obra conta a história de cinco astrônomos que aterrissam no satélite dentro de uma cápsula lançada por um canhão gigante. Lá são aterrorizados pelos selenitas; conseguem fugir e chegam seguros a Terra. Considerado o primeiro e mais velho filme da história do cinema. Para quem gosta de coisa antiga é muito divertido.





O Vingador do Futuro (1990), de Paul Verhoeven
Homem de classe média tem pesadelos com o planeta Marte. Ele decide realizar uma viagem mental pelo lugar, mas algo dá errado e diversas pessoas estão à sua procura. Logo, investiga a si próprio indo até a colônia humana fincada no planeta vermelho. A obra choca pelo excesso de violência, mas a história é espetacular e se não ficar atento vira uma bola de neve.




Wall-E (2008), de Andrew Staton
Um pequeno robô-empilhadeira vive há 700 anos na Terra acumulando montanhas de lixo num planeta quase morto. Uma nave aterrissa e deixa um ser artificial mais desenvolvido, EVA, para investigar o lugar. Ambos se conhecem e quando EVA é forçada a ir embora, Wall-E a persegue. Impactante do começo ao fim, essa pérola demonstra o quanto o homem pode destruir sua casa sendo que o necessário seria apenas cuidar dela.

terça-feira, 14 de julho de 2009

Enlatados

A arte em si possui um viés de propagar idéias com sabedoria e criatividade. Dentro de uma cultura, engrandece seus aspectos sociais diversificando a inteligência da comunidade, motivando-as como civilização prestigiada e influenciando os parâmetros artísticos do futuro. Na lista das artes, a sétima produz uma força econômica poderosa e não nega sua característica massiva, principalmente para os estúdios de Hollywood.

Certa vez, ouvi de meu chefe, dono de vídeolocadora, sobre os filmes estadunidenses o seguinte: estes não passavam de enlatados com produções fúteis para uma massa em busca de caça-níqueis; em contrapartida, dever-se-ia valorizar os filmes de arte, o cinema europeu e asiático etc. Não foi a única pessoa que já me falou isso, não será última e tenho de concordar com alguma coisa, afinal Hollywood cansa as mentes alheias com suas bombas.

Só que o cinema norte-americano buscou esta linha de produção fordista adquirindo um volume de lucro extorsivo através do merchandising. Tudo pode ser vendido e muitas vezes alguns filmes se pagam antes de estreiar. Igualmente, os Estados Unidos se nutrem dos conceitos e técnicas estrangeiras regurgitando-as como criações próprias. Se antes isso ficava mais à surdina para a grande massa, hoje é completamente disseminado entre ela. Ao final, todo o trabalho era vendido como uma lancheira, uma caneta ou um caderno em escala industrial.

Durante os anos 1930, os estúdios venciam a concorrência européia – em parte por causa da “fuga de mentes” na Alemanha e da conseqüente Segunda Guerra Mundial – e firmaram um terreno nos buracos das culturas forasteiras ao redor do globo. Isso durou anos e em muitos lugares sequer há uma produção no mínimo eficiente de cinema. Enquanto Brasil, Argentina e México fortalecem seus mercados, outros países da América Latina não conseguem avançar. Em outros continentes existe o mesmo problema.

Algumas nações afrontam esse poderio do mercado cinematográfico com estruturas mais fortes – França, China, Índia e Japão – e nestas os Estados Unidos têm mais dificuldades em arrasar a concorrência. Por quê? Além de se autovalorizarem culturalmente, essas nações jogam de igual para igual com o filme imigrante. Por exemplo, os chineses têm restrições fortíssimas com o cinema de fora sendo que apenas 20 cópias por ano conseguem sua introdução naquele mercado. Em outro caso, os indianos têm Bollywood e se satisfazem muito mais com sua indústria do que com a alheia. Ainda há o fato de que alguns blockbusters não pegam no Japão, afinal Batman: O Cavaleiro das Trevas levou uma surra do anime Ponyo em 2008.

Além disso, o apreço que Hollywood tem pelos sucessivos recordes de bilheteria leva a crer aos demais a sensação de querer participar desse bolo também. Ou de muitas outras fatias disponíveis. Aí entra a lógica de mercado, e isso vale para qualquer filme independente de sua origem. Um diretor pode não se preocupar em quanto seu filme irá arrecadar, mas ele quer público. Desta forma, o trabalho precisa ser vendido, pois é algo caro e muitos profissionais se esforçam para ter reconhecimento por ele. É praticamente a mesma coisa com o teatro ou a música.

Deste modo, os festivais de Cannes, de Sundance, de Berlim, de Toronto, de Veneza abrem as portas para a negociação entre produtores e distribuidoras. Depois de uma passagem nas telonas, esses filmes passam pelo processo seletivo das vídeolocadoras e do público. Ou seja, são vendidos porque estão incluídos dentro de um mercado e, portanto, são todos enlatados. Em decorrência disso, alguns transeuntes culturais dizem que os estrangeiros realizam filmes de arte enquanto cineastas hollywoodianos não; ou somente os norte-americanos sabem fazer cinema (sério, já ouvi ambas as frases). O apreço por este tipo de cinema é questão de gosto, mas o argumento além de impróprio e taxativo qualifica-se também como improdutivo e imbecil.

Quer dizer que se indianos copiam descaradamente um filme dos Estados Unidos (ou de qualquer outro lugar) não estão produzindo a mesma coisa? E a França lançando as continuações do sucesso Táxi? E o cinema brasileiro com Se Eu Fosse Você? E a enorme quantidade de filmes lançada todos os anos de várias partes do mundo dos gêneros drama, suspense, ação e terror enquadram-se no quê? Por outro lado, Fargo, Sangue Negro, Wall-E, 21 Gramas, Magnólia ou Os Excêntricos Tenembauns deixariam de lado sua classificação como “filme de arte” por serem norte-americanos?

Existe uma coexistência entre todos os gêneros possíveis nas prateleiras ou nas TVs por assinatura. Algumas obras nem poderiam se fixar num gênero específico. Enquanto Star Trek e Cloverfield se adéquam entre o cinema e a televisão, o diretor Steven Soderbergh tem um status quo de representação independente em todo o suja carreira, influenciado por conceitos de Jean-Luc Godard; há idéias oriundas do trash nos filmes de Robert Rodriguez, Quentin Tarantino e Peter Jackson assim como Akira Kurosawa fora de grande influencia conceitual a George Lucas, Francis Ford Coppola, Steven Spielberg, entre outros.

É uma miscelânea de tudo. As fronteiras estão sumindo e se ainda não foram, minam-se elas através de YouTubes da vida. A imagem do cinema no mundo digital é um liquidificador cheio de filosofia, arte e idéias novas que se misturam a todo o momento. Dali surge uma surpresa e, como o antigo chocolate da Nestlé, está embalada num pacotinho pronto para a venda na esquina mais próxima da sua casa. Se para alguns é só mais um enlatado, para outros é trunfo da arte.

sábado, 4 de julho de 2009

A Era dos Dinossauros

DATA: 65 milhões a.C.
Não há um filme que conte as circunstâncias do Big Bang – mesmo porque não haveria personagens para agir nessa situação –, portanto nada mais justo do que iniciar o processo de narração da História pelos lagartos terríveis, vulgo dinossauros.
Durante todo o período em que o cinema foi se aprimorando, os dinos dificilmente eram bem tratados. Alçados como feras assassinas gigantes feitas de massinha de modelar nos primeiros filmes, eles disputavam terrenos de maneira violenta e normalmente faziam seres humanos de petiscos. Se as terras inóspitas do planeta asseguravam o habitat desses repteis, caçadores desalmados adoravam invadi-las ao seu bel prazer. E assim, perseguidos como monstros, os bichos caíam em desgraça ou eram mantidos em paz.
Deve-se dar graças a Michael Crichton, Steven Spielberg e George Lucas pela concepção dos dinossauros como animais e não aberrações. Através de efeitos especiais por computador aprimorando o realismo, esses seres influíram no imaginário da geração que chegava ao fim do século XX. No entanto, os erros científicos sempre interferem na visão dos cientistas mesmo que seja para contar uma boa estória: os Velociraptores são muito grandes, o Tiranossauro não corria tanto e por aí vai. Independente do que dizem, os autores sabem no que estão mexendo, pois peritos trabalham com eles. O problema é a visão distorcida que o público vai ter.
A série Jurassic Park ainda representa bem a recriação pela clonagem de tais espécies por gananciosos seres humanos enquanto se proliferam por um mundo perdido no meio do oceano. Deve-se levar em conta que as estórias situam os dinossauros nos dias atuais e não em sua própria época. As mudanças se equivalem dentro do padrão da ficção.
Então, o que dizer de Dinossauro (2000)? Compromete-se como uma versão tecnicamente mais rica que a animação 2-D Em Busca do Vale Encantado, lançado em 1988. Nos dois casos, a idéia básica está na diáspora que assola a vida na Terra. Se em Vale Encantado devastadores abalos sísmicos e erupções vulcânicas modificam todo o aspecto terrestre – aludindo à deriva continental –, em Dinossauro existe o gigantesco meteoro em queda e, por conseguinte, explodindo como uma bomba atômica voraz.
Aos poucos, a vida vegetal beira à escassez enquanto as espécies herbívoras são presas cada vez mais fáceis dos bichos carnívoros. Ambas as obras tinham a idéia de serem quase documentais, ou seja, não haveria qualquer diálogo. Os dinos urrariam, os sons “naturais” teriam predominância e o espectador poderia ambientar-se com a vida selvagem. Contudo, mudanças de roteiro e apelos de membros (in)diretamente ligados à produção ocasionaram tais anacronismos. O resultado é sofrível.

Dinossauro busca no realismo contemplar absurdos espetaculares e risíveis: por que animais do período Jurássico devem se misturar aos do Cretáceo sendo que já estavam extintos? Por que todo carnívoro é vilão e todo herbívoro é mocinho? Por que re-filmar Em Busca do Vale Encantado com efeitos de Jurassic Park (ambos com dedo de Spielberg)? Por que enfiar um final feliz abusivo sendo que todo mundo foi morto milhares de anos depois? Porque é Disney! E pode-se até qualificar este desenho entre os piores feitos pelo estúdio. Em compensação, os efeitos são magníficos: logo no começo com o vôo singular do pterodáctilo, passando à explosão do meteoro que invoca a peregrinação, não a muito do que reclamar. E fica nisso.
Sendo assim, Em Busca do Vale Encantado intencionava ser bem infantil, justificando até a falta de exatidão científica para enfeitar dramaticamente a estória. Em contraparte, o conteúdo de Dinossauro chega a ser tão piegas que o espectador mais cético o menospreza por completo. Sério, se a extinção dos dinossauros foi tão maniqueísta é preferível acreditar em Chuck Norris se apresentando na pré-história e dizendo: “Olá dinossauros! Eu sou a extinção.”

quarta-feira, 24 de junho de 2009

Vida à paisana

Viagens ao interior (e à praia) são fugas do cotidiano exausto para as pessoas da cidade grande. Elas necessitam retirar-se da sua realidade e conhecer hábitos que não fazem parte do seu leque superficial de civilização. Não é à toa que sempre vemos caravanas nas rodovias às vésperas dos feriados: ali estão aventureiros em busca por uma fantasia de prazer, de alegria.

No caso, entremos em outra procura de distração para os que não têm tempo ($$) de viajar; entremos no mundo da ficção, ou melhor, de dois filmes e de um livro: Sob o Sol da Toscana, de Audrey Wells, e Um Bom Ano, de Ridley Scott, são dois lados de uma mesma moeda enquanto o “todo” será preenchido pela obra póstuma de Eça de Queiros, A Cidade e as Serras.

No filme de Audrey Wells, as plantações de vinhas, girassóis, oliveiras e afins da região da Toscana enchem os olhos de qualquer um; e quando a escritora norte-americana Frances (Diane Lane) parte em uma excursão pela Itália, ela resolve se fixar no lugar depois de ser traída no casamento – e literalmente expulsa de sua residência. Com o tempo, irá se habituar aos distintos italianos locais, além de reerguer a própria vida.

Já a obra de Ridley Scott mostra a estória do investidor britânico Max Skinner (Russell Crowe) que recebe de herança um vinhedo francês após a morte de seu tio. Ao se deparar com o local e com o péssimo vinho fabricado por lá, ele pretende vendê-lo; e ao mesmo tempo, rememora sua infância. Mais tarde, novas pessoas surgem em sua vida, nutrindo um efeito que o faça voltar atrás em sua decisão.

Tanto um quanto outro, não há nada inovador. Basicamente a mesma sinopse para públicos distintos. Os efeitos hollywoodianos só o tornam mais vendáveis ao grande público. Diga-se de passagem: ambos são adaptações de livros homônimos e se passam na região do Mar Mediterrâneo, onde justamente estão as maiores vinícolas da França e da Itália (talvez do mundo).

Ainda sim, existem diferenças. Sob o Sol da Toscana tenta ser mais um drama romântico de uma mulher na fossa com requintes de humor. Frances se diverte com a trupe de trabalhadores que reformam sua casa, mas presencia amargamente a desilusão de sua melhor amiga grávida (Sandra Oh). E à procura de um novo amor (típico dos filmes de Diane Lane) ela também irá encontrar um pouco de insatisfação. Nada que não possa ser contornado.

E apesar de Um Bom Ano ser um drama igualmente, a obra tende ao humor em si. O personagem principal não apenas é egocêntrico para lidar com as pessoas, como zomba os franceses a todo o momento. Há uma cena realmente cômica (ou é a única) em que desafia Francis Duflot, o capataz do vinhedo, numa partida de tênis entre França e Inglaterra reavivando a rixa entre ambos. Com relação ao amor, o britânico se apaixona pela dona de um restaurante local, Marion Cottillard (até eu!), e através dela, sua decisão quanto à venda da fazenda chegam ao dilema completo.

Vejamos o caso de A Cidade e as Serras: Jacinto de Tormes é um rico bon vivant na Paris do século XIX. Sempre compra todo tipo de bugiganga que a revolução industrial pode produzir. Um antigo amigo seu, Zé Fernandes, aparece na capital francesa e ambos passam a conviver juntos por um tempo até que Jacinto entra em profundo pessimismo com a civilização parisiense. Resolve então a voltar à Portugal para resolver um problema com os túmulos de seus parentes. Observando atentamente a região serrana, passa a gostar de viver ruralmente e das pessoas a quem pretende ajudar; atendo-se ao campo cria estirpe no local.

Publicado pouco depois da morte de Eça de Queiros, a obra é uma espécie de “tataravó” dos dois filmes citados. Durante o século XIX, a amabilidade do homem civilizado de Paris (para ser mais sucinto) produziu inúmeros aprimoramentos científicos e tecnológicos cujas conseqüências desatinaram na falta de raízes familiares, consumismo exacerbado de conhecimento, futilidades em demasia e pobreza esquecida. Este último se evidencia no momento em que Jacinto conhece uma mulher doente passando fome na região de seu imenso terreno em Tormes.

Com Zé Fernandes incumbido de narrar o choque desses dois mundos perpetrado tanto por ele próprio quanto por Jacinto, é que temos real valor das percepções de ambos ao exprimirem prós e contras ao evolucionismo industrial e à calmaria campestre. Desta maneira, mesmo definido num tom realista de prosa, Eça de Queirós (cujo Realismo português fora justamente iniciado pelo autor) incitou uma veia romântica ao final da obra; aproxima-se mais da humanização das personagens, ao invés de buscar na sátira uma crítica ferrenha da sociedade da época.

Em qualquer um dos três casos, fica claro que a “civilização” urbana é um lugar mesquinho, individualista e superficial, mas de bastante progresso intelectual, industrial e monetário. Ou seja, os três personagens precisam resgatar algo que haviam perdido com o passar dos anos; para isso, eles devem esquecer o estado pessimista vivenciado e garantir algo mais altivo.

A ficção maravilha o espectador (e o leitor) com suas facilidades momentâneas; eis que para alguém sair de sua complicada e desajustada vida dos grandes centros urbanos deve refazê-la num ambiente totalmente novo, no meio rural. Quem dá um pontapé em Schopenhauer e revira seus conceitos pessimistas para algo mais agradável tem sempre um final feliz. Abrandando a vida assim, ao menos surte efeito na nossa imaginação.

Adaptações, até onde pode ir a infidelidade?

Todo mundo sabe, comenta, refuta, endossa, pergunta, reclama, sobre o perrengue eterno entre livros e suas adaptações cinematográficas. É um fato consumado. Mostre-me qualquer adaptação literária (falando especificamente de um romance bom, por favor – pulp de banca é OUTRA história que eu conto depois, ou não) que não recebeu pelo menos uns cinco comentários do tipo "ah, o livro é melhor", e eu lhe mostro uma mentira. É chato, é clichê, e você sabe que não tem como fugir disso; o livro sempre é melhor.

Nessas, entrar no papo de que são duas mídias distintas, com estruturas narrativas distintas, é meio punheta. Não que não seja verdade. Porque é. Mas também não é desculpa para muito aborto nascido por aí, e entrar nesse mérito agora é esticar a discussão ad infinitum. Coisa muito técnica, às vezes, e muito teórica nas outras.

Só para brincar na borda, um romancista tem uma liberdade expansiva que um cineasta geralmente não tem. É só pensar em quantos livros você já viu por aí com 400, 500 páginas (ou mais), e em quantos filmes tem uma metragem de quatro ou cinco horas. Porque o ditado nos engana ou, pelo menos, não é suficiente: uma imagem vale mais do que mil palavras; mas mil palavras intensas, numa narrativa única, precisa de muito mais imagens para equivaler. Mas eu realmente não quero me delongar aqui.

O ponto crucial, talvez, seja um pouco mais profundo. Não sei.

O grande trunfo do livro, aquilo que talvez provoque toda fúria incontida (embora sempre previsível) dos leitores apaixonados, é óbvio. O escritor não força a história para você; apenas a narra, com mais ou menos acerto, e o resto fica por conta do próprio leitor. E, cá entre nós, não é que ele não force a história por altruísmo. Simplesmente não consegue. Ele pode te indicar a música que acha cabível em um determinado momento da história, mas não colocá-la para tocar no rodapé da página como, metaforicamente falando, um diretor faria. Então o leitor vai lá e cobre essas lacunas, e cria dentro da cabeça um modelo pré-determinado da história, ainda que muito canhestramente. Quando acaba por ver uma adaptação cinematográfica dessa história, o modelo narrado em filme e a pré-concepção criada pelo leitor se chocam, às vezes com similaridades, às vezes com diferenças irreconciliáveis.

Dentro da adaptação, ainda existe, sempre, ou em pelo menos 90% dos casos, acho, outro problema: algo tem de ser cortado. Pouquíssimas adaptações escapam desta outra sina (já ouvi dizer, embora não o tenha lido ainda, que a adaptação dos irmãos Coen para o velho Cormac de Onde os Fracos não têm vez, é tão fiel, que se tornou objeto de uma pequena discussão entre amigos na entrega do Oscar; uma especulação onde se dizia que o filme não merecia realmente o prêmio de Melhor Roteiro Adaptado). Isso se torna um problema particularmente sensível (o corte) se o cineasta, seja por gosto pessoal ou por necessidade (sendo geralmente a segunda), remove da montagem final justamente aquela parte que o leitor-espectador-crítico admirava no romance.

Claro que estou me apegando à ponta do iceberg. O tamanho que essa discussão pode adquirir (especialmente se você a tiver numa mesa de bar; acredite!) é imenso. Nem tente. Sério.

Claro que existem boas adaptações literárias também (O Poderoso Chefão e 2001: Uma Odisséia no Espaço não contam, por motivos distintos). Até pensei em citá-las, mas com certeza ia me esquecer de alguma e me sentir mal depois.

Vou me ater as duas então que eu considero quase geniais, por ser o que eu vou chamar de, vai lá, "Mockadaptações” *. Naked Lunch (eu me recuso a chamá-lo pelo título em português, nada pessoal) é um filme de David Cronenbergh baseado no livro homônimo de William Burroughs. E na sua biografia. E em experiências com drogas. E com pirações típicas do cineasta que nada tem a ver com Burroughs, mas que tem MUITO a ver com Burroughs. É uma obra de arte, no duro.

Outro, Kafka, consegue ser uma mockadaptação ainda maior que Naked Lunch. Basicamente, o que Steven Soderbergh fez foi pegar o autor Franz Kafka em algum momento impreciso da sua biografia (mais ou menos entre os primeiros contos, a tuberculose e o ápice de sua criação) e jogá-lo dentro de um pesadelo kafkaniano, num processo de metalinguagem que é sutil, inteligente e, por que não, divertido.

Não acho que a mockadaptaçãos seja o único caminho a se seguir, algo à lá "salvação da literatura no cinema". Pelo contrário. A verdade, aqui entre nós, é que não existe salvação. Não há o que salvar, seja nos filmes, seja nos romances. Enquanto houver um idiota escrevendo, um dirigindo, e dois lendo ou assistindo, existirá obras geniais, ruins, incompreendidas. Não é uma questão de "o que é bom", e sim de "o que eu gosto". Sempre é.

Então leia o livro. Veja o filme. Faça ambos.

E me conte depois qual é melhor.

* Uma brincadeira com o termo mockumentary, que designa documentários feitos em cima de temas e/ou personagens forjados (não, não estou falando do Michael Moore). Na verdade, são filmes 100% ficcionais, mas feitos dentro dos moldes de um documentário. Por exemplo, This is Spinal Tap! de Rob Reiner; Zelig, de Woody Allen ou a comédia recente Borat.

** Texto concebido por Rafael Ucha Campos.